Foto: Arthur Covre

Rosemeire Marcondes me recebeu na sala da casa onde mora no bairro do Cambuci. Ela fala com um carinho sobre a vó Deolinda, a madrinha Eunice, mulher negra, filha de escravos. “Minha avó foi para o Rio de Janeiro em 1936 para ver o carnaval. Voltou para cá decidida a fundar uma escola de samba”. Assim, começava a Lavapés, em 1937, considerada a mais antiga de São Paulo.

Rose cresceu no meio do samba e do carnaval. Na Lavapés, já fez de tudo: desfilou na ala das baianas, foi rainha de bateria, já costurou alegorias, fantasias. Até que em 1996, com a morte da avó, ela assumiu a presidência da agremiação que há décadas já não mostrava o mesmo desempenho de outrora quando conquistou mais de 20 títulos.

A Lavapés está hoje no Grupo 2 de Bairro, o antigo Grupo 4. Nós últimos anos, perdeu também a quadra que ficava na Rua Barão de Iguape. O terreno foi tomado de volta pelo governo federal.

Rose teve que levar a escola literalmente para dentro de casa. Os ensaios passaram para a rua. Pensou em largar tudo e acabar com a Lavapés. Não o fez. Até que em maio deste ano, o ator Ailton Graça bateu palmas em frente ao portão da casa de Rose.

– Mãe, o padre tá aí na frente.
– Padre?
– É. O padre da novela!
– Caramba! É o Ailton!

Abraçaram-se. Choraram. Começava ali uma parceria. A Lavapés passou a se chamar Lavapés Pirata Negro, com o nome do instituto iniciado pelo ator para fomentar e estimular a produção de arte e a memória do povo negro. Rose se tornou presidente de honra. Ailton, o presidente.

Os ensaios deixaram a rua e foram para uma quadra no bairro do Jabaquara. As pessoas voltaram a frequentar a escola. Outras vieram pela primeira vez. “Espero que possamos fazer um bom carnaval em 2020 e que possa deixar minha avó orgulhosa lá de cima”.

Rosemeire é mais uma personagem do Cidade em Retratos – Especial Aniversário de São Paulo.

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